Som dos insetos pode ser ouvido já nas primeiras horas do dia e acompanha o período de temperaturas mais altas. Tradição popular associa a cantoria à chegada da chuva, mas a ciência mostra que a explicação passa principalmente pelo calor e pela reprodução.
Quem acorda cedo em Alvarenga tem encontrado uma combinação que dificilmente passa despercebida: calor já nas primeiras horas da manhã e o canto forte das cigarras vindo das árvores. Em alguns pontos, a “cantoria” começa cedo e continua em diferentes momentos ao longo do dia.
Para muita gente, principalmente entre moradores mais antigos, o som imediatamente traz à memória uma velha sabedoria popular: “cigarra cantando é sinal de chuva”. Há também quem diga que, quando elas começam a cantar com força, é porque “o tempo vai esquentar ainda mais”.
Mas, afinal, o que existe de verdade nessas observações?
A resposta é interessante: os antigos perceberam corretamente uma relação entre as cigarras e determinadas condições do tempo, mas o inseto não funciona como uma previsão meteorológica.
“Cigarra cantou, a chuva chegou”: o que diz a tradição
A associação entre cigarras e chuva atravessa gerações em várias regiões do Brasil. O próprio Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden, registra a expressão popular “a cigarra cantou, a chuva chegou”, destacando, porém, que não existe base científica para considerar o inseto um indicador seguro de que choverá.
A origem dessa crença provavelmente está na observação da natureza.
É justamente nos períodos quentes e, em muitas regiões brasileiras, também próximos da estação chuvosa, que as cigarras ficam mais perceptíveis. Assim, ao longo de décadas, as pessoas passaram a relacionar uma coisa à outra.
O projeto Ciência no Ar, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destaca que as cigarras são presença comum principalmente durante períodos quentes e chuvosos, o que ajuda a explicar por que a tradição popular conseguiu estabelecer essa ligação.
Portanto, a frase dos antigos não surgiu do nada. Ela nasceu de anos de observação, mas deve ser entendida como sabedoria popular, e não como previsão do tempo.
Então por que elas cantam tanto quando está quente?
Aqui está a principal ligação com o calor.
As cigarras são animais cuja atividade depende bastante das condições ambientais. Temperaturas mais elevadas favorecem seu metabolismo e tornam os adultos mais ativos.
E existe outro detalhe fundamental: a principal função daquele som que ouvimos não é anunciar chuva ou reclamar do calor. É reprodução.
Na grande maioria das espécies, são os machos que produzem o forte chamado para atrair as fêmeas. A Universidade da Flórida explica que esse som é produzido por estruturas especiais chamadas timbais, localizadas no abdômen. Elas são movimentadas rapidamente pelos músculos do inseto, produzindo sucessivos estalos que, amplificados pelo corpo, formam o som característico da cigarra.
Ou seja: enquanto para nós parece uma enorme “orquestra” espalhada pelas árvores, no mundo das cigarras aquilo é, principalmente, uma grande comunicação reprodutiva.
E por que estão cantando já nas primeiras horas do dia?
O início do canto pode variar conforme a espécie, temperatura, luminosidade, umidade e condições do ambiente.
Em períodos muito quentes, quando a temperatura sobe rapidamente pela manhã, a atividade dos insetos também pode começar cedo. Muitas espécies de cigarras apresentam intensa atividade sonora durante o dia, especialmente nas estações mais quentes.
Isso ajuda a explicar o cenário observado em Alvarenga: se as manhãs já começam aquecidas, as condições favoráveis à atividade desses insetos podem aparecer mais cedo.
E quando o calor permanece durante horas, a “sinfonia” pode reaparecer ou continuar em diferentes pontos da cidade e da zona rural.
Cigarra consegue prever chuva?
Não da maneira como muitas vezes imaginamos.
Ouvir uma cigarra cantar não significa que necessariamente choverá nas próximas horas.
Especialistas apontam que temperatura, umidade, estágio de desenvolvimento e período reprodutivo estão relacionados à atividade das cigarras. Como essas condições muitas vezes coincidem justamente com a época de retorno das chuvas, surge a impressão de que elas estão “avisando” sobre uma mudança no tempo.
Em outras palavras:
cigarra cantando pode indicar que as condições ambientais estão favoráveis para a atividade dela; não que o inseto tenha capacidade de prever quando a chuva chegará.
Para saber se realmente existe possibilidade de chuva, continuam valendo as informações meteorológicas, como umidade, formação de nuvens, sistemas atmosféricos, radares e previsões oficiais.
E aquele ditado de que a cigarra “estoura” de tanto cantar?
Também é mito.
É comum encontrar uma espécie de “casca de cigarra” presa em troncos de árvores. Por muito tempo, isso ajudou a alimentar histórias de que o animal teria cantado tanto que “estourou”.
Na realidade, aquela estrutura é o exoesqueleto abandonado durante a muda.
Durante boa parte de seu desenvolvimento, a cigarra permanece no solo. Quando chega o momento adequado, sobe por árvores ou outras superfícies e realiza a última troca de pele antes de assumir sua forma adulta. A antiga “casca” permanece presa ao local, muitas vezes praticamente inteira.
Portanto, a cigarra não explode de tanto cantar.
Um som pequeno capaz de ser impressionantemente alto
Talvez uma das maiores curiosidades seja o volume.
Apesar do tamanho reduzido do inseto, determinadas cigarras conseguem formar verdadeiros coros. Quando vários machos cantam simultaneamente, o som pode atingir intensidade surpreendente.
O Smithsonian Institution explica que o corpo do macho atua como uma espécie de caixa de ressonância, amplificando as vibrações produzidas pelos timbais. Em grandes concentrações, algumas espécies podem formar coros extremamente altos.
É justamente por isso que, mesmo estando no alto de uma árvore, uma única cigarra — ou principalmente várias juntas — pode ser ouvida a dezenas de metros de distância.
O que o canto das cigarras pode dizer sobre a natureza
Embora não sejam “meteorologistas”, as cigarras ajudam a mostrar como os seres vivos respondem ao ambiente.
Temperatura, períodos de chuva, vegetação, luminosidade e estações do ano influenciam ciclos biológicos de diferentes animais. No caso das cigarras, essas mudanças ficam evidentes porque há uma consequência impossível de ignorar: o som.
Em Alvarenga, onde áreas urbanas convivem muito próximas de matas, pastagens, quintais e propriedades rurais, essa manifestação da natureza aparece de forma bastante perceptível.
E talvez seja justamente daí que tenha surgido tanta sabedoria popular.
Antes de aplicativos de previsão do tempo, satélites e radares meteorológicos, gerações inteiras aprenderam a olhar para o céu, observar plantas, acompanhar animais e interpretar sinais da natureza.
Nem todas essas interpretações são confirmadas pela ciência, mas muitas nasceram de fenômenos reais que eram observados repetidamente.
Calor, cigarras e uma pergunta que atravessa gerações
Assim, quando alguém em Alvarenga ouvir aquela cantoria forte logo pela manhã e disser “pode esperar que vem chuva”, existe uma boa história por trás da frase.
A ciência apenas faz uma pequena correção: a cigarra não está anunciando a previsão do tempo. Ela está respondendo às condições ambientais e, principalmente, procurando uma parceira.
O calor favorece a atividade; determinadas épocas quentes coincidem com períodos de maior umidade e chuva; as cigarras aparecem e cantam; e a experiência popular junta todos esses elementos.
No fim das contas, o canto que tem acompanhado os dias quentes em Alvarenga é mais do que um simples barulho.
É reprodução, comportamento animal, resposta ao clima e também memória popular, tudo acontecendo ao mesmo tempo nos galhos das árvores.
E você? Também já ouviu dos mais antigos que “quando a cigarra canta, a chuva está perto”? Qual outro sinal da natureza seus pais ou avós ensinavam a observar?










